A vitória de Bolsonaro é a maior mudança de rumo na política brasileira desde a redemocratização, em 1985. Representa a volta dos militares ao centro do poder e a ascensão da “nova direita”, liberal na economia e conservadora nos costumes

Fernando Martins

Bolsonaro vence o 2.º turno e se elege presidente do Brasil
Jair Bolsonaro, far-right lawmaker and presidential candidate for the Social Liberal Party (PSL), waves to supporters during the second round of the presidential elections, in Rio de Janeiro, Brazil on October 28, 2018. – Brazilians will choose their president today during the second round of the national elections between the far-right firebrand Jair Bolsonaro and leftist Fernando Haddad (Photo by Carl DE SOUZA / AFP)

Jair Bolsonaro (PSL) é o novo presidente do Brasil. Ele obteve 55,13% dos votos válidos (57,79 milhões de votos absolutos) no segundo turno da eleição presidencial. Fernando Haddad (PT) ficou com 44,87% dos votos válidos (com um total de 47,04 milhões votos de eleitores). O segundo turno teve ainda 11,08 milhões de votos nulos ou brancos (9,57% do eleitorado). Não compareceram à votação 31,37 milhões de brasileiros (21,30% do eleitorado).

A vitória de Bolsonaro não é apenas uma derrota do PT – partido vitorioso nas últimas quatro eleições presidenciais, desde 2002. Ele representa a chegada ao poder da “nova direita” brasileira (também chamada por muitos de extrema-direita): liberal na economia e conservadora nos costumes.

Trata-se da maior mudança de rumo na política brasileira desde o fim da ditadura e a redemocratização, em 1985. Essa percepção é reforçada pela volta dos militares ao centro da política. Bolsonaro, um admirador do regime militar (1964-1985), é capitão da reserva; seu vice é o general Hamilton Mourão; e o futuro governo possivelmente terá vários outros oficiais das Forças Armadas em seu primeiro escalão.

Bolsonaro se converteu ao liberalismo às vésperas da campanha

Há controvérsia, dependendo da ideologia de quem faz a análise, se o Brasil teve governos efetivamente de direita desde a redemocratização. A esquerda costuma colocar no outro lado do espectro ideológico os governos de José Sarney (1985-1990), Fernando Collor (1990-1992), Itamar Franco (1992-1994), Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Michel Temer (2016-2018). Muitos analistas dizem que esses foram governos centristas – pois, embora tenham adotado políticas de direita, não abriram mão de uma boa dose de intervencionismo econômico e de estatismo (talvez com a exceção de Temer). E há, dentro da nova direita, quem diga que esses governos foram de esquerda (incluindo Temer, a quem consideram ser uma continuação do governo da esquerdista Dilma Rousseff).

Um dos elementos para definir a posição de um governo no espectro político-ideológico é a economia. Bolsonaro se converteu ao liberalismo às vésperas da campanha eleitoral, apesar de ter tido posições nacional-desenvolvimentistas (associadas à esquerda) em matéria econômica durante toda a sua trajetória como deputado federal. Mas agora ele promete “tirar o Estado do cangote do produtor”. Seu futuro ministro da Economia, o ultraliberal Paulo Guedes, defende privatizar estatais num ritmo nunca antes visto.

Mas ainda paira uma dúvida se a conversão de Bolsonaro é pra valer e se seu governo será genuinamente liberal. Ele inclusive já disse que não vai vender as empresas públicas “estratégicas” (Petrobras, Eletrobras, Caixa Econômica e Banco do Brasil).

Conservadorismo cresce como reação ao “progressismo” da esquerda

A grande novidade do governo de Bolsonaro, nesse sentido, tende a ser a introdução do conservadorismo de costumes nas políticas públicas, numa reação à agenda “progressista” associada à esquerda. O conservadorismo é uma pauta de direita que não era articulada como agora e que tampouco teve um governo deliberadamente favorável a ela desde a redemocratização.

Bolsonaro conseguiu captar um sentimento popular de rejeição ao “progressismo” da esquerda – associado a pautas como a defesa do direito ao aborto, a valorização de minorias, a ampliação dos direitos dos homossexuais, a defesa da teoria de que os gêneros masculino e feminino são construções sociais e não imposições da natureza (a chamada ideologia de gênero), a defesa dos direitos humanos (vistos pela nova direita como uma defesa de criminosos).

Como deputado, Bolsonaro se opôs durante o governo Lula ao projeto Escola sem Homofobia – apelidado de “kit gay” –, por entender que ele iria promover a sexualização precoce de crianças nas escolas. Sempre foi um crítico feroz dos “direitos humanos dos criminosos”, e defendeu políticas de tolerância zero contra o crime. Criticou políticas voltadas especificamente para minorias como os homossexuais e quilombolas.

Muitas vezes fez tudo isso com atitudes e palavras ofensivas contra quem o questionou – seja homem ou mulher, hétero ou homossexual, branco ou negro. Suas manifestações lhe valeram a acusação de ser homofóbico, machista, racista, autoritário.

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Mas, por outro lado, a falta de papas na língua de Bolsonaro também o ajudou a construir uma parcela do eleitorado imagem de político autêntico, num momento em que a maioria dos demais é vista como falsa ao vocalizar um discurso “politicamente correto” – outra agenda associada à esquerda.

Quando a campanha eleitoral chegou, Bolsonaro estava pronto para encarnar no imaginário popular a imagem de defensor aguerrido dos valores tradicionais e cristãos da família brasileira. Seu slogan de campanha – “Brasil acima de tudo; Deus acima de todos” – buscou sintetizar essa ideia.

Militares voltam ao centro do poder pela primeira vez desde a ditadura

O slogan da campanha do PSL também revela a terceira grande mudança representada pela vitória de Bolsonaro: a volta dos militares para o centro da política. O bordão patriótico e religioso é o mesmo da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército – o presidente eleito e o general Mourão foram paraquedistas.

A última vez em que as Forças Armadas tiveram tanta força política foi justamente na ditadura. Bolsonaro é um defensor do regime militar. Já elogiou suas práticas, como a tortura. Segundo ele, foram atitudes necessárias para evitar que o país virasse uma ditadura comunista.

Durante a campanha, ele inclusive fez um paralelo com 1964 ao associar a volta do PT ao poder à instalação de uma ditadura bolivariana no Brasil. Mas sob a sombra do autoritarismo e desgastado pela acusação de ser autoritário, Bolsonaro se comprometeu a obedecer a Constituição.

A associação dele com os militares, contudo, teve pontos positivos para ele. O então candidato se aproveitou da boa imagem que a população brasileira tem das Forças Armadas, e colheu os frutos de defender ordem e disciplina em um momento em que muitos eleitores dizem não aguentar mais a “bagunça” da política.

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